quarta-feira, 6 de junho de 2012

miúdos

Os pingos eram finos, quase inexistentes, mas os dois estavam sem casaco e por isso sentiam um por um tocando-lhes a pele. Arrepiados, eles caminhavam a passos apertados na rua asfaltada e deserta. Ele sentia mais frio que ela,  mas mesmo assim disse:
- Se eu tivesse um casaco, lhe ofereceria.
Ela retribuiu com um sorriso, mas foi só, e continuou andando. Olhava para ele de vez em quando.
- No que está pensando? - ele perguntou.
- Que a chuva poderia parar - ela respondeu, honesta e rapidamente.
- Não gosta da chuva?
- Você gosta?
Mais uma vez, os dois se perguntaram questões cuja resposta era desconhecida - nenhum deles se dava ao luxo de responder. Como de costume. Ele tirou um cigarro do maço e olhou para ela, entristecido:
- É o último. Podemos dividir.
- Não se encomode, odeio fumar na chuva - ela respondeu, agora parando na frente de uma cafeteria cuja varanda era coberta - Vamos ficar aqui até a chuva diminuir, certo?
- Quer entrar? - ele disse, logo após acender o cigarro, parando para olhar os casais do lado de dentro, comendo pãezinhos, bebericando seus respectivos cafés - Estou com fome.
- Você nunca sente fome, só está com vontade de me pagar um café por pura educação - ela disse, séria, mas percebeu que estava sendo rude e forçou um sorriso depois de alguns segundos - Estamos com pressa, querido, não precisamos entrar. Basta me dar um trago do cigarro e vamos andando.
- Eu estou com fome, venha - ele disse, lhe passando o cigarro e entrando no café logo em seguida, deixando-a sem outra alternativa senão acompanhá-lo.
Ela entrou, sentou-se no balcão ao seu lado, fitando o cigarro e batendo o pé no chão.
- Porque tanta pressa? Você nem queria ir a esse festival... - ele disse, pegando o cardápio.
- Mas já que vamos... - ela disse, chamando o garçom - Dois expressos, por favor, e rápido, se não for pedir demais - o garçom fez sinal de sim com a cabeça e saiu sem dizer nada.
- Vou ao banheiro - disse ele, com impaciência ao se levantar. Depois de entrar no toalete, se olhou no espelho, ajeitou os óculos, a camiseta e o cabelo molhado. Pensou consigo mesmo se tocava no delicado assunto que os fizera brigar dias antes, e ao decidir fazê-lo, respirou fundo.
Deu meia volta e, ao avistar o balcão, o encontrou vazio. O cigarro queimava e o garçom deixava os dois cafés aonde eles estavam sentados minutos atrás, mas nenhum sinal dela - fora a porta de saída, que acabara de se fechar.

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