quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

memória de açúcar

Há tanta cabeça crédula de cada coisa que pensa, sente ou fala. Enquanto isso, tenho poucas certezas na vida. No entanto, ainda que incerta de muitos dos meus próprios pensamentos, sentimentos e palavras, há pequenas verdades absolutas. Uma delas é que existem pessoas pontuais em nossas vidas que, independente de nossa vontade, nós não esquecemos.
Não esquecemos, mas morremos de medo que, com o passar dos anos, esqueçamos os detalhes que tanto nos agradam. Um sorriso, um cheiro, uma voz, um sotaque, uma conversa, um toque, uma mania. A memória engana e, como todo sonho bom, a gente passa a duvidar da existência de algumas delas.
Pois bem, que então o propósito desse texto seja posto em prática: que duvide do detalhe, mas que se recorde da sua profundidade e significado sempre que ler o quanto os adorava.
Quanto ao rosto dessas certas pessoas, digo por mim mesma - e falo com toda a certeza que eu poderia apostar em palavras tão singelas com as seguintes: o dela, não esqueço.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

sonho de varanda


Era sempre ela quem traçava os planos. Ele, por sua vez, nunca os desmanchava - não por medo de desagradá-la. A garota não era autoritária, o rapaz aceitava todas as suas propostas justamente pelo fato de ser apaixonado pela fome de vida que ela tinha - e tudo que ele queria era saciá-la, mesmo sabendo que sua constante vontade de viver nunca cessaria.
Estavam numa estrada, dirigindo em direção do litoral, mas sem saber precisamente em que praia ficariam.
- Se realmente casarmos, moraremos numa casa - ela falou.
Ele sorriu, apoiando o braço na janela aberta enquanto a outra mão segurava firmemente o volante.
- Como seria a casa?
- Poderia ser uma bem simples, com um quarto ou dois - respondeu ao passo que abria a janela do carro para brincar com o vento, usando a ponta dos dedos - Eu só faria questão de uma varanda.
- Uma varanda? - perguntou, sorrindo.
- É, uma varanda - ela sorria e apoiava os pés em cima do porta luvas, encolhida no banco do passageiro - Pra poder passar as noites de sábado lá, lendo, conversando e fumando... Até que o sol resolvesse nascer. Então esperaríamos que os raios nos aquecessem, tomaríamos café da manhã e só então iríamos pra cama.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

avião no ar

Como estavas linda!
Como estavas quente!
Mas juro que ouvi
Por entredente
Mais suspiro do que gente:
"Te amo!"
Apavorado,
Medroso,
No fundo contente

Não tenhas medo;
Levo-te
Não sofras por antecedência
Não antecedas o impresumível
Pois não nego-te
E não negarei

Não derrame a mim tuas lágrimas
Não dê o recibo de teus suspiros
Pois quero arrancar-lhe ainda
Muitos e muito sorrisos


por Julia Medeiros